O Reino Perdido da Borboleta-Carnaval (Tó Vieira)

Data: 04-2018

Local: Serra da Boa Viagem

No dia 26 de abril de 2018, António e Aldiro embarcaram numa aparentemente simples sessão de macrofotografia na Serra da Boa Viagem que rapidamente se transformou numa aventura digna de um conto de fantasia. Entre orquídeas que enganam vespas apaixonadas, descidas épicas por encostas escorregadias e uma floresta sem trilhos nem GPS, os dois exploradores acabaram por descobrir um verdadeiro tesouro natural. A recompensa surgiu sob a forma de uma magnífica borboleta-carnaval (Zerynthia rumina), transformando uma jornada atribulada num final feliz repleto de magia, humor e beleza.


Relato da sessão

Há aniversários que se celebram à mesa. Outros com bolo, velas e canções. Mas, no meu caso, o 61.º aniversário foi celebrado da forma mais adequada possível: botas de borracha nos pés, máquina fotográfica ao pescoço e uma expedição rumo aos mistérios da Serra da Boa Viagem.

A Universidade oferecera-me o dia de folga e eu, agradecido pela gentileza, convidei o Aldiro Pereira para uma sessão de macrofotografia. Afinal, algumas pessoas oferecem-se jantares de luxo; nós oferecemo-nos caminhadas por silvados, escorregadelas e dores musculares no dia seguinte.

Partimos de manhã cedo e, pelas nove e meia, já estávamos estacionados no nosso local habitual. O ritual foi cumprido com a solenidade dos antigos exploradores: apertar botas, preparar câmaras, testar flashes e verificar se toda a parafernália fotográfica estava pronta para enfrentar os desafios do mundo minúsculo.
Começámos pelo carreiro junto ao morro das silvas.

Mas, naquela manhã, os habitantes do Pequeno Reino dos Insetos pareciam pouco inspirados.
Apareceram os suspeitos do costume: a borboleta-verdinha-comum, moscas-das-flores, escaravelhos-das-flores, joaninhas de sete pintas, varejeiras e algumas tipulas que vagueavam pelo ar como velhos dirigíveis.
Bonitos? Sim.
Mas não exatamente material para épicos.

Quando chegámos ao final do carreiro, o Aldiro apontou para baixo da encosta.
— E se tentássemos chegar àquele carreiro lá em baixo?
Observei a situação.
Parecia simples.
Uma pequena descida.
Uma passagem por algumas silvas.
Um modesto canavial.
Nada que merecesse entrar para os livros da História.
As palavras “nada de especial” seriam mais tarde consideradas um dos maiores erros de avaliação desde que alguém decidiu que o Titanic era insubmersível.
— Vamos lá.

E fomos.
Ao chegarmos ao novo trilho, parecia que tínhamos atravessado um portal invisível para outro reino.
Ali encontrámos uma abelha-mineira coberta de pólen dos pés à cabeça. Parecia ter mergulhado voluntariamente numa banheira dourada e recusava claramente admitir qualquer excesso.
Pouco depois surgiram as borboletas-xadrez, com os seus padrões elegantes, e uma discreta traça Acasaluada que exibia as asas como se usasse um fato de gala.
Mais adiante apareceu uma pequena borboleta azul da família Lycaenidae, tão delicada que parecia feita de fragmentos de céu.
No entanto, a maior maravilha aguardava-nos sob a forma de uma flor.
Uma orquídea-bruxa.
Bem, os botânicos chamam-lhe Ophrys speculum, ou espelho-de-vénus. Mas naquele momento parecia mais uma criatura saída de um conto antigo.
As suas flores possuíam um brilho azul-metálico mágico, rodeado por pelos castanhos que imitavam uma fêmea de inseto. A planta lançava perfumes invisíveis para o ar e enganava machos de certas vespas, convencendo-os de que tinham encontrado a parceira perfeita.
Os pobres apaixonados chegavam cheios de esperança.
A flor recebia-os.
E saíam de lá enganados, mas carregados de pólen.
Era provavelmente o esquema de burla mais sofisticado de toda a Serra da Boa Viagem.

Infelizmente, enquanto observávamos os prodígios daquele reino encantado, o caminho começou a estreitar.
E a inclinar-se.
Primeiro um pouco.
Depois mais um pouco.
E depois bastante mais do que seria razoável.
O Aldiro perguntou:
— Continuamos ou voltamos para trás?
Ora, voltar para trás nunca foi um dos meus talentos. O desconhecido exerce sobre mim o mesmo efeito que o mel exerce sobre uma abelha.
— Continuamos. Isto deve ser só uma pequena descida.

As últimas palavras famosas.
A descida transformou-se rapidamente numa espécie de escorrega natural. O terreno estava cada vez mais íngreme e escorregadio.
Chegou um momento em que a única técnica segura que encontrei foi descer sentado.
Com toda a dignidade possível.
Que, devo admitir, não era muita.
Enquanto isso, o Aldiro avançava como uma cabra-montês treinada para missões especiais.
Eu deslizava.
Ele caminhava.
Eu resmungava.
Ele sorria.
E, para garantir que a posteridade não perdesse tão notável espetáculo, ainda ia registando fotograficamente as minhas figuras.

descer sentado

Após a descida veio outra descida.
Depois mais pedras.
Depois mais inclinação.

descida com pedras

E finalmente chegámos a uma floresta densa onde não existiam trilhos, placas, marcos ou qualquer outra evidência de civilização.

Tentámos consultar o GPS.
Os telemóveis olharam para nós e responderam algo muito próximo de:
— Nem ideia.

Não estávamos propriamente perdidos.
Sabíamos perfeitamente que estávamos na Serra da Boa Viagem.
O problema era descobrir em que parte da Serra da Boa Viagem.
Depois de várias tentativas sem grande sucesso, escolhemos avançar para a esquerda, abrindo caminho entre arbustos, silvas e árvores tombadas.

abrindo caminho

Nessa altura, a minha expressão já devia fazer lembrar um cavaleiro medieval após três dias de batalha.
O Aldiro, demonstrando uma generosidade digna das grandes sagas, ofereceu-se para transportar o meu equipamento fotográfico.

sem equipamento fotográfico

Assim seguimos.
Dois aventureiros.
Um caminho imaginário.
Uma floresta encantada.
E uma probabilidade crescente de aparecermos numa lenda local.

Foi então que aconteceu.
Como recompensa por todos os tropeções, escorregadelas e dúvidas existenciais, encontrámos finalmente um trilho.
E, com ele, a joia escondida daquele reino.
Uma borboleta-carnaval.
Zerynthia rumina.
Nunca tinha fotografado aquela espécie.
Parecia uma pintura ambulante.
Amarelos luminosos.
Desenhos negros intrincados.
Manchas vermelhas que brilhavam como pequenas brasas ao sol.
Era impossível olhar para ela e não pensar que algum artista excessivamente entusiasmado tivera acesso à paleta de cores da natureza.
Mais extraordinário ainda, a fêmea encontrava-se carregada de ovos.
Pequenas esferas verdes alinhavam-se junto ao abdómen, prontas para dar continuidade à história da espécie.
Enquanto procurava cuidadosamente a planta ideal para a postura, nós seguíamo-la com as objetivas apontadas.
Imagino que, do ponto de vista dela, a situação fosse algo inquietante.

borboleta-carnaval (Zerynthia rumina)

Afinal, duas criaturas gigantescas tinham acabado de emergir da floresta e perseguiam cada um dos seus movimentos.
Talvez tenha pensado:
“Entre todos os locais da montanha, tinha mesmo de pôr os ovos aqui?”
Mas teve paciência connosco.
E nós com ela.
No final, a borboleta encontrou o seu lugar.
Os ovos ficaram entregues ao futuro.

E nós encontrámos aquilo que todos os fotógrafos da natureza procuram sem o admitir:
Uma história.
Porque as melhores fotografias não são apenas imagens.
São recompensas.
São tesouros encontrados depois de um caminho difícil.
E, naquele aniversário, a Serra da Boa Viagem ofereceu-me exatamente isso.
Não um bolo.
Não velas.
Mas uma aventura por um reino perdido, uma orquídea feiticeira, uma floresta sem caminhos e uma borboleta-carnaval que transformou uma expedição atribulada num final feliz digno de conto de fadas.

Tó Vieira

Galeria de fotografias


Texto: Tó Vieira

Fotografias: Tó Vieira e Aldiro Pereira

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