O dia em que quase fui derrotado por uma borboleta

Data: 05-2017

Local: Serra da Boa Viagem

Durante uma saída de campo em maio de 2017, a Serra da Boa Viagem ofereceu-me um daqueles momentos que só a natureza sabe proporcionar: um encontro inesperado, poético e ligeiramente cómico com duas fritilárias-dos-lameiros (Euphydryas aurinia) em plena cópula — e com um macho particularmente empenhado em defender o seu território.


Relato da observação

A manhã estava luminosa e tranquila quando encontrei duas Euphydryas aurinia entregues ao seu ritual de acasalamento, como se o mundo inteiro fosse um palco reservado para elas. Aproximei-me com cuidado, fotografando a cena com a reverência de quem observa um pequeno milagre natural.

Tudo corria serenamente até que uma das borboletas decidiu que eu merecia atenção especial. Num gesto dramático, digno de protagonista de novela, lançou-se num voo rasante sobre a minha cabeça. Uma vez. Duas vezes. Senti o ar mexer o cabelo — curto, mas aparentemente suficiente para ser aerodinamicamente relevante.

Por um breve instante, pensei: “É hoje. Estou a ser atacado por uma borboleta.”
Depois de centenas de borboletas fotografadas, eis que finalmente uma decide enfrentar-me.
A vida de fotógrafo de natureza tem perigos que não vêm nos manuais.

Claro que, passado o susto, percebi que não se tratava de um ataque, mas sim de um comportamento natural: um macho vigilante, empenhado em garantir que nenhuma oportunidade de romance lhe escapava.

O comportamento territorial

Os machos da fritilária-dos-lameiros são verdadeiros guardiões do território, utilizando uma estratégia de acasalamento muito ativa e bem definida:

  • Posto de vigia: Escolhem ramos ou arbustos expostos ao sol e transformam-nos em torres de controlo dignas de aeroporto.
  • Voo de inspeção: Qualquer movimento — folha, sombra ou fotógrafo distraído — é imediatamente investigado.
  • Confusão de escala: Ao aproximar-me, a minha cabeça entrou no perímetro visual do macho. Para ele, podia ser uma fêmea promissora ou um rival atrevido. Para mim, era só a minha cabeça.

Quando finalmente percebeu que eu era apenas um humano gigante, desinteressante e sem asas, regressou ao seu poiso com a dignidade de quem parece dizer: “Ah. Engano meu.”

E assim terminou o episódio: não um ataque, mas uma inspeção amorosa. Uma borboleta em patrulha, um fotógrafo surpreendido e a natureza a lembrar — com humor e poesia — que até os seres mais delicados têm os seus territórios, as suas regras e os seus dramas.

Tó Vieira


Galeria de fotografias



Texto e fotografias: Tó Vieira

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