O dia em que um inseto do tamanho de uma vírgula mudou a minha manhã

Data: Julho de 2014

Local: Angeja – Albergaria-a-Velha

Um convite aparentemente simples para fotografar um inseto transformou-se numa verdadeira aventura de observação. Entre arbustos, dúvidas existenciais e uma boa dose de paciência, descobri um dos mais eficazes mestres da camuflagem da natureza: o soldadinho-búfalo (Stictocephala bisonia).


Relato da observação

Num domingo de julho de 2014, o meu amigo Aldiro Pereira lançou-me um desafio que parecia simples:
“Queres ir fotografar um inseto que tenho a certeza que nunca viste na vida?”
Quando um expert em Macro Fotografia faz uma proposta destas, a experiência ensina-nos que há uma elevada probabilidade de acabarmos deitados no chão, a olhar para arbustos durante horas e a questionar a nossa própria capacidade visual. Naturalmente, aceitei.

O destino era Angeja, a pouco mais de quinze minutos de casa. Peguei na minha Nikon D600, na inseparável Sigma Macro 105 mm e lá seguimos, ainda de manhã, cheios de entusiasmo e sem imaginar, pelo menos eu, que passaríamos boa parte do tempo a olhar para o vazio.

A grande busca

Chegados ao local, o Aldiro conduziu-me até uma sebe de arbustos junto à estrada e, mal lá chegámos, começou imediatamente:
— Olha tantos!
Olhei … Não vi nada.
— Não estás a ver?
Voltei a olhar … Continuava sem ver nada.
O Aldiro insistia:
— Estão ali! Estão por todo o lado!
Eu examinava os ramos, as folhas, os espinhos e até os espaços entre os espinhos. Nada.
Comecei então a desenvolver algumas teorias. A primeira era que estava a ser vítima de uma partida cuidadosamente planeada. A segunda era que existia uma câmara escondida a filmar a minha figura para posterior diversão pública. A terceira era que o Aldiro tinha razão e o problema estava sentado atrás dos meus próprios olhos.
Infelizmente, esta última hipótese revelou-se a correta.

A revelação

Enquanto o Aldiro já fotografava alegremente, eu continuava a semicerrar os olhos como um avô a tentar ler a letra minúscula de uma bula. Passados alguns minutos, comecei finalmente a detectar pequenos pontos em movimento.
Pareciam poeiras … Ou mosquitos microscópicos … Ou talvez defeitos da minha visão.
Só quando levei o olho ao visor da máquina percebi que aquelas minúsculas partículas tinham forma … E pernas … E más intenções para com a minha autoestima.

Entre os ramos surgiam pequenas figuras verdes que apareciam e desapareciam numa fração de segundo.
Não voavam propriamente. Teletransportavam-se.
Foi então que aconteceu o momento da revelação … Finalmente vi-o … O meu primeiro membracídeo.
Mais concretamente, um soldadinho-búfalo (Stictocephala bisonia).

O mestre da camuflagem

Confesso que fiquei impressionado. Ali estava um animal com apenas alguns milímetros de comprimento a fazer dois fotógrafos de natureza parecerem investigadores à procura de uma molécula desaparecida.
O soldadinho-búfalo é um dos grandes génios da camuflagem. Tem a forma de um pequeno espinho vegetal, veste-se da mesma cor dos ramos jovens e passa a vida inteira a fingir que faz parte da planta.
E a verdade é que resulta.
Resulta tão bem que passámos largos minutos a olhar para dezenas deles sem conseguir distinguir um único.

A batalha fotográfica

Mas encontrar o inseto foi apenas metade da batalha. A outra metade era fotografá-lo.
Para aumentar a ampliação, coloquei todos os tubos de extensão que tinha entre a câmara e a objetiva. Depois montei o flash, o difusor e mais alguns acessórios que transformaram a máquina numa espécie de telescópio improvisado para observar criaturas microscópicas.
Seguiu-se então a fase mais importante da macrofotografia: a paciência … Muita paciência … Uma quantidade absurda de paciência.
Cada vez que encontrava um exemplar e me preparava para disparar, ele desaparecia com um salto tão rápido que parecia ter sido apagado da realidade.
E não era impressão minha. Apesar de medir apenas entre seis e dez milímetros, o soldadinho-búfalo possui um mecanismo de salto extraordinário. Num instante está ali. No instante seguinte já desapareceu.
O cérebro ainda está a processar a informação quando o inseto já mudou de ramo e, muito provavelmente, de concelho.
Ao longo da manhã fotografei centenas de vezes. Talvez demasiadas. Talvez muitas mais do que seria razoável admitir em público.
No final, como acontece frequentemente na macro fotografia, apenas algumas imagens mereceram sobreviver ao processo de seleção.

Uma lição de humildade

Mas a maior recompensa daquele dia não foram as fotografias … Foi a descoberta … Foi a lição de humildade … Foi perceber que um inseto do tamanho de uma vírgula conseguiu esconder-se de dois adultos equipados com câmaras, objetivas, flashes e anos de experiência.
E foi também a confirmação de uma suspeita antiga: na natureza, os seres mais pequenos são muitas vezes os que se divertem mais à nossa custa.
Enquanto regressávamos a casa, fiquei com a sensação de que os soldadinhos-búfalo tinham passado toda a manhã a observar-nos dos seus esconderijos vegetais, comentando entre si:
“Olhem para eles… vieram de propósito para nos fotografar e demoraram meia hora a encontrar-nos.”
E talvez tivessem razão. Afinal, naquele dia, os verdadeiros especialistas em observação éramos nós… observados por eles.

Tó Vieira


Galeria de fotografias



Texto e fotografias: Tó Vieira

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