Data: 07-2014
Local: Serra da Boa Viagem
Uma sessão de macro fotografia é sempre um teste à humildade humana: cada folha pode ser um animal, cada graveto pode ter pernas e cada pedaço de lixo pode afinal estar vivo. Nesta saída de campo, em julho de 2014, um Bicho‑pau decidiu que já tinha visto o suficiente da nossa cegueira e resolveu apresentar-se de forma memorável.
Relato da observação
Ir para uma sessão de macro fotografia na natureza é, no fundo, um exercício de humildade. A pessoa sai de casa convencida de que tem boa vista… e volta a duvidar de tudo. No reino dos seres minúsculos, cada detalhe pode ser um animal disfarçado, e cada postura acrobática — de cócoras, deitado ou com o traseiro apontado ao céu — é apenas parte do ritual fotográfico.
Foi assim que eu e o meu amigo Aldiro caminhávamos devagar, pé ante pé, como dois monges em missão silenciosa pela Serra da Boa Viagem. O objetivo era não assustar os bichos… embora, como viríamos a descobrir, alguns bichos não estavam minimamente preocupados com isso.
Num daqueles momentos em que o silêncio parece ter som, um Bicho‑pau decidiu que já tinha visto o suficiente da nossa falta de atenção. Com a elegância de quem faz uma entrada em palco, saltou para cima da máquina fotográfica do Aldiro como se dissesse:
“Meus palermas, estou aqui. Era só olhar.”
O Bicho‑pau — mestre absoluto da camuflagem, artista do disfarce, poeta da imobilidade — passa o dia inteiro a fingir que é um ramo seco. E consegue. Consegue tão bem que nós, humanos armados em fotógrafos, passamos por ele vinte vezes sem o ver. Mas naquele dia, talvez farto de ser ignorado, resolveu apresentar-se.
Depois da sua entrada triunfal, pousou numa pequena planta, assumiu a sua melhor pose de “eu sou invisível, mas deixo-vos fotografar”, e ficou ali, imóvel, como se estivesse a rir-se da nossa falta de atenção.
E nós fotografámos. Fotografámos muito. Porque quando a natureza decide colaborar, até os gravetos ganham personalidade. Fotografamos, não só o Bicho-pau, mas também alguns outros insetos.
Foi um dia produtivo, divertido e cheio daquela magia que só existe quando o mundo pequeno decide abrir a porta e dizer:
“Entra. Hoje deixo-te ver.”
Aldiro
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